domingo, 28 de março de 2010

Goiânia: O díficil caminho para Senador Canedo

Plataforma de embarque lotada no Terminal Novo Mundo a caminho de Senador Canedo


Reportagem de Rafael Martins

A cidade de Senador Canedo está a 18 km de Goiânia, e sua ligação com a capital se dá em duas linhas de ônibus, a 283 (via GO - 020) e a 255 (via GO - 403). Ambas as linhas são congestionadas, lotadas, sofrem atrasos e gera insatisfação aos usuários.

No primeiro dia, embarquei na linha 255, que sai do T. Novo Mundo e vai até Senador Canedo. Comparada a linha 283, seu trajeto é mais rápido porém é mais lotado. "É assim todo dia e em qualquer horário. Sai lotado do terminal e as vezes a gente nem entra" diz a enfermeira Clara Andrade. "Lembro que tinha o ônibus do minhocão e ia bem mais tranquilo, agora só vai assim, com pessoas esmagando na porta" afirma o auxiliar de serviços gerais Marcos Santos. Esses ônibus que Marcos se refiriu eram da Rápido Araguaia que faziam a linha 255 (Novo Mundo / Senador Canedo), mas com a renovação da frota foram aposentados.

Consigo entrar no ônibus com dificuldade e sento no primeiro banco que vejo. Sentar na linha 255 é privilégio para poucos. Ao sair do terminal, o ônibus para somente nas primeiras paradas. Os poucos que entram se espremem para caber no ônibus extremamente cheio. Eram pouco mais de 16h30 e o sol quente e o calor só pioravam quem estava dentro do coletivo. " Já vi pessoas passarem mal aqui de tanto que estava cheio. Não tem condição uma coisa dessa. Será que ninguém vê isso", diz a designer gráfica Juliana Dantas. Um estudante Gabriel Carvalho oferece um proposta no mínimo interessante. "Porque que as autoridades não viajam pelo menos 1 dia para ver o caos que é isso aqui?".

A viagem continua e ao longo da rodovia, as paradas estão cheias, mas não lotadas e o ônibus na maioria das vezes não para. Vejo Senador Canedo de longe, e para alguns a tortura de ficar no ônibus chega ao fim. Aos poucos, as pessoas vão descendo mas ao mesmo tempo vai enchendo. É como encher um balão furado com água. Enfim chego ao Terminal de Senador Canedo e as pessoas descem. Como o terminal não é ponto final, alguns não descem, já que não é obrigatório . Percebo que algumas pessoas que não desceram, além de mim, haviam entrado dois ou três pontos antes do terminal. " Se eu não fizer isso, vou em pé até chegar em casa. Vai lotado demais, acho que nem boi sofre tanto no abate como a gente pra chegar em casa", diz a doméstica Aldenira Soares rindo da situação e completa " A gente ri pra não chorar porque a realidade mesmo é difícil". A copeira Mariana segue essa rotina todos os dias. Desce antes para poder ir sentada " Prefiro pagar um pouco a mais para ter conforto na hora de voltar para casa, porque todo dia enfrentar aquela lata de sardinha não dá", desabafa.

O ônibus chega na plataforma de embarque. Uma multidão o espera. O sol começa a se pôr e o ouço o motorista dizer " Acho que não vai caber tudo não". O coletivo encosta e num piscar de olhos o ônibus está cheio novamente. As pessoas entram desesperadamente atras de um lugar para sentar. Pergunto para a que está do meu lado se ela não se machuca com a "violência" com que ela entra. " É assim mesmo, se você não entra, te empurram e empurrar é pior. Quase quebrei o braço um dia por conta desses empurrões. O povo parece que não tem educação" diz.

As cenas que se repetiam na minha ida a Senador Canedo parecem as mesmas na volta. Começa a escurecer, o ônibus cheio segue de volta a Goiânia na esperança de tudo poder melhorar algum dia. O que para mim nesse dia foi uma experiência única, para a maioria que depende dessa linha, é uma rotina cansativa que parece não ter fim. Desembarco no Terminal Novo Mundo com um ar de alívio, como se pudesse respirar novamente. Um sentimento de liberdade.

No segundo dia, a situação é um pouco diferente. Do Terminal Novo Mundo, vou para o Terminal Praça da Bíblia. A linha é a 283 (T. Bíblia / Senador Canedo via Goiás Carne), mais longa que a 255. O relógio marca pouco mais de 13h. O ônibus demora e a plataforma de embarque começa a encher. Olho para o lado e vejo a situação da linha 580 e penso " A minha situação está um pouco melhor".

A doceira Dona Francisca diz que sempre o ônibus atrasa " Antes das mudanças atrasava, mas era bem menos, e vejo que agora a situação piorou. Já cheguei a esperar mais de uma hora. É um descaso com a gente" diz.

Recentemente o terminal foi alvo de manifestação ( saiba mais aqui
http://onibusrmtca.blogspot.com/2010/02/goiania-passageiros-param-terminal.html )por causa da demora dos ônibus para Senador Canedo.

Por sorte achei um que estava na manifestação daquele dia. O soldador Valdomiro Reis diz que a manifestação foi uma tentativa para chamar a atenção para o que estava acontecendo. " Aquele dia foi a gota d'água com todos os usuários. Acho que se não tivéssemos feito aquilo, não teriamos ônibus tão cedo, tanto que quando a situação se normalizou logo apareceu um ônibus mas não foi o sufuciente" conta.

Após 40 minutos o ônibus aparece. Talvez por conta do horário o coletivo não vai lotado, mas sim cheio. Algumas pessoas vão em pé. Ainda em Goiânia, o ônibus para nos pontos e pega poucos passageiros mas a medida que se aproxima do Flamboyant a situação muda. O coletivo começa a encher. " Desço na Goiás Carne" diz o faxineiro Fábio Martins. De fato a linha tem como destino principal Senador Canedo, mas de fato o destino é mesmo a Goiás Carne.

" Nossa demora demais e aindo fico na rodovia debaixo de sol quente e mormaço além de ir cheio para Senador Canedo. Ainda bem que paro antes do terminal" diz a doméstica Jéssica Marinho que trabalha na Vila Redenção. " Saio de casa antes das 6h para dar tempo de chegar no serviço porque senão sou demitida. Os nossos superiores nunca entendem as pessoas que dependem de ônibus. Quando a gente fala que o coletivo atrasa eles não acreditam" diz a vendedora Elizângela que trabalha em uma loja de roupas no Setor Campinas.

O coletivo segue seu curso e de repente chega a Goiás Carne. O ônibus dá uma respirada. " Sinto até aliviada. Agora dá pra respirar um pouco", diz uma senhora que estava literalmente espremida entre as pessoas. Agora o destino é o Terminal de Senador Canedo. " O Terminal deve estar lotado esperando esse ônibus. Ainda bem que desço antes porque lá parece o inferno. Se brincar o inferno é até melhor que aquilo ali" desabafa a balconista Nádia Porto. Após alguns minutos, chego de novo ao terminal da cidade. Todos descem e poucos ficam. Na hora de entrar é aquela confusão de sempre, como relatei na linha 255. " Pensei que não ia chegar nunca. Tá muito atrasado" diz uma mulher revoltada com o transporte coletivo. " A gente tinha era que fazer manifestação contra esses ônibus. É muita gente pra pouco veículo. Falam que vão resolver o problema mas tudo fica na mesma até o dia que começar a quebrar ônibus de novo pra ver se fazem alguma coisa" afirma o mecânio Sebastião Reis.

O ônibus sai cheio do terminal, não lotado mais cheio. A caminho de Goiânia o ônibus vai enchendo e chega na Goiás Carne. Alguns desistem até de entrar porque não cabe mais. De fora do ônibus escuto um passageiro dizendo " É só chegar pra trás que dá pra gente entrar motora" e o motorista retruca " Não cabe mais, não vê. Espera o próximo". O jeito dos que ficaram é esperar. Por conta de alguns atrasos, a linha esta sofrendo de superlotação principalmente depois das 17h.

A mesma sensação que senti ao desembarcar no Terminal do Novo Mundo é a mesma do Terminal Praça da Bíblia: alívio. A viagem é cansativa, mas para quem precisa se deslocar todos os dias para a capital, cansaço é só um pequeno obstáculo diante dos ônibus que enfrentam todos os dias tanto para ir trabalhar quanto na volta pra casa.